sexta-feira, 12 de setembro de 2008

estranheza


O lugar é frio. As janelas são metálicas.
As cadeiras e mesas e divisórias possuem cores opacas, neutras. Até o colorido do chão é sonso.
As pessoas falam baixo. Não sei se o são de fato, mas parecem tristes.
Talvez não tristes, mas felizes em mostrarem-se constantemente preocupadas, tensas.
Elas se sentam perto, mas não se falam. Sabem bem pouco uma da outra. O necessário, apenas. Às vezes, nem isso.
(confusão...)
A impressão é ruim.
São bem sucedidas. O al concour do meio ao qual pertencem. Estranho.
Estranho saber que eu deveria querer ser feliz do jeito delas, mas não quero.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

trouxeste a chave?


Perde o emprego.
Perde o rumo.
Perde a consciência.
Perde a mão. A fluência. A voz. A vez.

Perde a força.

Perde a chave.

Perde-se.

- Ei! Psiu! Escuta... Você não precisa perder sempre, não. Em meio às derrotas, brotam conquistas. Embora modestas e sutis, suficientes. Sei que pode ser difícil, mas, faça isso por si mesmo: acredite em mim.

terça-feira, 13 de maio de 2008

zeitgeist


Aí que ele assistia filmes que ela odiava.
Ele não lia, mesmo assim ela escrevia.
Ela estudava. Ele dormia e acordava.
Ele delirava, ela vivia.
Ela bebia. Ele inspirava – puxava forte.
Ela explicava, explicava... E cansava.
Ele brigava, depois chorava.
Ele se perdia, ela sempre o encontrava.
Ele amava, ela também.

- É fácil – continuou ele - É só não pensar – As palavras saíam de sua boca com serenidade que apunhalava, doçura que machucava. A feriu. E mesmo assim, sem conseguir parar de chorar, ela pediu, baixinho, numa humildade suplicantemente desesperada: “Então me ensina, por favor. Me ensina como você faz”.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

edaduas


Nem eu sabia que queria tanto
Não tinha noção da diferença desse medo, desse espanto

Hoje cheguei em casa meio sem jeito...

...E sem cheiro

Sem gosto
E sem rosto
Meio sem alegria
Ou simpatia
Sem cantos e acalantos
Sem mimos

Sem sal.

Sem cor ou malícia
Sem aquela delícia
Sem identidade
Sem vontade
Sem criatividade

Sem graça.

Até o dia ficou cinza
Sem sol
Sem brilho
Sem pleonasmos
Sem cerveja e sem papos

Sem chão
Sem direção
Sem sujeito e predicado
Sem contato

Sem você, aqui, encaixado confortavelmente ao meu lado

quarta-feira, 19 de março de 2008

como pode?


Tem coisas que, de tão geladas, queimam.
Tem belezas que, de tão belas, enjoam.
Tem cabeças que, de tão inteligentes, mesquinham.

Pois então, têm também tristezas que, de tão tristes, alegram.

São aquelas que brotam da certeza, da conformidade de algo que simplesmente não é. Vêm de uma morte qualquer, para o renascimento. Vêm do desfoque, refocado. De metas, remetidas. Vêm das pazes com Chronos, com Afrodithe e, em especial, com você mesmo. Vêm da certeza do que o universo enxerga de melhor para você. E do seu consentimento calado e sofrido. Consente porque sabe ser o melhor. ..

Por mais torto, mais estranho. Por mais triste.

segunda-feira, 3 de março de 2008

* sundae para acompanhar, senhor?


O texto que segue abaixo é o trecho final de um curta-metragem do Jorge Furtado que assisti.

Como ele, também não acredito em destino.

Acho que - no máximo! -, o que ocorre é que algumas coisas tendem a acontecer. Contextos pré-existentes facilitam alguns fatos na vida de cada um, mas até aí estar fadado à determinada sina simplesmente porque "está escrito" - como muitos acreditam – não. Isso não mesmo.

Acredito que sejamos responsáveis pelo rumo que damos à nossa vida. Acredito que se alguém tem o poder de executar algo feliz, estagnar algo infeliz, se arrepender, seguir em frente ou voltar atrás, acertar, errar e reparar, somos nós mesmos perante nossas próprias vidas. Acredito ser demonstração de infinita coragem, qualquer atitude que tenhamos que tomar que, de alguma forma, torne a caminhada de nossas vidas feliz o suficiente e, assim, ao olharmos para trás, não tenhamos a sensação de tempo perdido.

Tempo é experiência e, experiências infelizes são necessárias, mas quando deixamos que perpetuem, tornam-se tempos gastos em vão, desperdiçados... E a gente já tem tão pouco!

ESTRADA
Jorge Furtado

"(...)Você acredita no destino?
Eu não!
Eu acredito que o ser humano tem poder e totais condições para estragar a sua própria vida sem a ajuda de ninguém, tomando as decisões erradas nas horas impróprias, aliando-se a sacanagens diversas, acreditando em heróis, crentes e outros farsantes, apaixonando-se por pessoas doentes ou de péssimo caráter e, principalmente, acreditando CEGAMENTE em sua própria inteligência, bondade, charme, sanidade e senso de justiça. Um grave erro!
Às vezes as probabilidades permitem que você possa contar com alguns momentos bastante bons, que podem ser prolongados se você tiver alguém pra dividir e pra lembrar deles. Que podem ser em maior número, se você tiver a capacidade de planejá-los.
Acho que é isso: um amor recíproco, algum dinheiro, trabalho, muitos planos (prazerosos e executáveis) e (é claro!) um pouco de sorte!"

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008